Suplementos Alimentares em Portugal
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Índice
O que são suplementos alimentares
Os suplementos alimentares são definidos pela legislação europeia como géneros alimentícios destinados a complementar o regime alimentar normal. Apresentam-se habitualmente em formas doseadas, como cápsulas, comprimidos, ampolas ou sachês, e podem conter vitaminas, minerais, aminoácidos, ácidos gordos essenciais, fibras, extratos de plantas ou outras substâncias com efeito nutricional ou fisiológico.
Em Portugal, a sua comercialização é regulada pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária DGAV e o seu enquadramento legal decorre do Decreto-Lei n.º 136/2003, que transpõe a Diretiva Europeia 2002/46/CE. Importa distinguir claramente suplementos alimentares de medicamentos: os primeiros não têm indicação terapêutica reconhecida nem necessitam de prescrição médica para venda, ao contrário dos segundos, cuja eficácia e segurança são avaliadas por autoridades como o INFARMED.
Esta distinção tem implicações práticas. O facto de um produto ser vendido livremente não significa que seja isento de riscos ou que seja adequado a todas as pessoas.
Quem toma suplementos em Portugal: dados de 2025
De acordo com o Estudo Nacional Saúde 2025, conduzido pela Marktest sobre uma amostra representativa de 953 indivíduos entre os 18 e os 64 anos residentes em Portugal Continental, 22,1% dos portugueses referem tomar suplementos alimentares regularmente. Tal significa que aproximadamente 1 em cada 5 adultos recorre a este tipo de produto de forma habitual.
O estudo, com margem de erro máxima de ±3,17 pontos percentuais para um intervalo de confiança de 95%, fornece uma fotografia atual do comportamento de saúde da população portuguesa e constitui uma referência relevante para compreender os padrões de suplementação no país.
Na prática clínica, observa-se frequentemente que o consumo de suplementos é motivado por preocupações relacionadas com cansaço, imunidade ou bem-estar geral, sem que exista necessariamente um diagnóstico de carência nutricional confirmada analiticamente.
Os suplementos mais consumidos pelos portugueses
Entre os portugueses que tomam suplementos regularmente, os dados do Estudo Nacional Saúde 2025 revelam uma preferência clara por determinadas categorias de produtos. Os multivitamínicos e minerais são, de longe, os mais consumidos, com 63,8% dos utilizadores regulares a referir este tipo de suplemento. A seguir surgem o ómega 3 e ácidos gordos essenciais 23,7%, o colagénio e suplementos para pele, cabelo e articulações 22,8%, a proteína em pó 19,6% e a creatina para aumento de força e desempenho físico 19,5%.
Com valores próximos surgem ainda os probióticos para a saúde intestinal 19,0%, os suplementos de reforço do sistema imunitário 17,6% e os suplementos naturais para reduzir o stress e melhorar o sono, como valeriana, melatonina ou triptofano 15,7%.
Este padrão de consumo reflete as principais preocupações de saúde identificadas no mesmo estudo: reduzir o stress e a ansiedade é a prioridade número um para cerca de um quarto da população portuguesa, seguida da redução do cansaço 17,7% e do controlo de peso 17,2%. A escolha dos suplementos parece, assim, estar alinhada com estas preocupações percebidas, ainda que nem sempre exista evidência científica robusta que sustente a sua eficácia nestas situações específicas.
Para que servem e o que dizem as evidências
A utilidade clínica dos suplementos alimentares varia significativamente consoante o produto, a população alvo e a presença ou ausência de défice confirmado. Segundo orientações da Organização Mundial de Saúde OMS e da European Food Safety Authority EFSA, o consumo de suplementos é clinicamente justificado quando existe uma carência nutricional identificada, um risco aumentado de défice, ou necessidades aumentadas em fases específicas da vida, como a gravidez, a amamentação ou a terceira idade.
No caso dos multivitamínicos, a evidência disponível não suporta de forma consistente o seu uso preventivo em adultos saudáveis com uma alimentação equilibrada. Já o ómega 3 tem evidência mais consolidada no contexto da saúde cardiovascular, embora os benefícios variem consoante a dose, a fonte e o perfil de risco do indivíduo. A creatina tem evidência reconhecida no contexto do desempenho desportivo de alta intensidade.
Os probióticos apresentam evidência crescente para contextos específicos, como a diarreia associada a antibioterapia ou determinadas perturbações gastrointestinais funcionais, mas a sua indicação generalizada como suplemento de bem-estar não está ainda suficientemente sustentada pela literatura científica.
Em contexto de acompanhamento médico ou nutricional, a decisão de suplementar deve partir sempre de uma avaliação individual, idealmente suportada por análises laboratoriais que permitam identificar défices reais.
Limitações e riscos a conhecer
O facto de os suplementos alimentares serem produtos de venda livre não equivale a ausência de riscos. Existem interações conhecidas entre determinados suplementos e medicamentos, como é o caso da vitamina K com anticoagulantes, do hipericão com antidepressivos, ou de altas doses de cálcio com a absorção de outros minerais.
O consumo excessivo de determinadas vitaminas lipossolúveis, como as vitaminas A e D, pode causar toxicidade acumulada, uma vez que o organismo não as elimina facilmente. Da mesma forma, doses elevadas de determinados minerais, como o ferro ou o zinco, podem ter efeitos adversos se tomados sem necessidade clínica demonstrada.
Outro aspeto relevante prende-se com a qualidade e rastreabilidade dos produtos. Nem todos os suplementos comercializados cumprem os mesmos padrões de controlo de qualidade, e a presença de substâncias não declaradas nos rótulos, embora rara, está documentada em estudos internacionais, em particular em produtos destinados ao desempenho desportivo.
De acordo com recomendações clínicas da Direção-Geral da Saúde DGS, a toma de qualquer suplemento alimentar deve ser comunicada ao médico assistente, especialmente em caso de doença crónica, polimedicação, gravidez ou aleitamento.
Quando consultar um profissional de saúde
A consulta de um profissional de saúde é aconselhável antes de iniciar qualquer regime de suplementação, em particular nas seguintes situações:
Suspeita de carência nutricional, com sintomas como cansaço persistente, queda de cabelo, alterações na pele ou unhas frágeis. Estes sintomas têm múltiplas causas possíveis e requerem avaliação médica e diagnóstico diferencial antes de qualquer intervenção.
Presença de doença crónica ou toma regular de medicação prescrita, uma vez que o risco de interações é mais elevado nestes contextos.
Prática desportiva intensa, onde a necessidade de proteína, creatina ou outros suplementos de desempenho deve ser avaliada por um nutricionista especializado.
Gravidez ou planeamento de gravidez, fases em que existem necessidades nutricionais específicas, como o ácido fólico e o iodo, com recomendações definidas pela DGS.
O médico de família é o ponto de entrada privilegiado para esta avaliação. Segundo o Estudo Nacional Saúde 2025, cerca de metade dos portugueses tem médico de família e consegue marcar consultas, o que representa um recurso acessível para esclarecimento nesta matéria.
Perguntas frequentes
O que são suplementos alimentares e para que servem?
Os suplementos alimentares são produtos destinados a complementar a alimentação habitual com vitaminas, minerais, aminoácidos, ácidos gordos ou outros nutrientes. Não têm indicação terapêutica e não substituem medicamentos. O seu uso é justificado quando existe uma carência nutricional identificada ou necessidades aumentadas em fases específicas da vida, como a gravidez ou a terceira idade.
Quantos portugueses tomam suplementos alimentares regularmente?
Segundo o Estudo Nacional Saúde 2025, realizado pela Marktest para a Medicare, 22,1% dos portugueses entre os 18 e os 64 anos tomam suplementos alimentares de forma regular, o que corresponde a aproximadamente 1 em cada 5 adultos residentes em Portugal Continental.
Quais são os suplementos alimentares mais consumidos em Portugal?
Os multivitamínicos e minerais lideram o consumo, com 63,8% dos utilizadores regulares a referi-los. Seguem-se o ómega 3 23,7%, o colagénio 22,8%, a proteína em pó 19,6% e a creatina 19,5%, de acordo com dados do Estudo Nacional Saúde 2025.
Os suplementos alimentares têm riscos?
Sim, os suplementos alimentares podem apresentar riscos, nomeadamente interações com medicamentos, toxicidade por excesso de vitaminas lipossolúveis e efeitos adversos de determinados minerais em doses elevadas. O facto de serem produtos de venda livre não garante ausência de riscos, pelo que a toma deve ser sempre comunicada ao médico assistente.
É necessário receita médica para tomar suplementos alimentares?
Não é necessária receita médica para adquirir suplementos alimentares, uma vez que estes são produtos de venda livre regulados pela DGAV. No entanto, a consulta de um médico ou nutricionista antes de iniciar qualquer suplementação é recomendada, especialmente em caso de doença crónica, gravidez ou toma regular de medicação.
Os suplementos alimentares substituem uma alimentação equilibrada?
Não. Segundo orientações da Organização Mundial de Saúde e da European Food Safety Authority, os suplementos alimentares não substituem uma alimentação variada e equilibrada. O seu papel é complementar a dieta quando esta não fornece quantidades suficientes de determinados nutrientes, situação que deve ser avaliada individualmente por um profissional de saúde.