Lúpus: tudo o que precisa de saber sobre esta doença autoimune
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Índice
O lúpus é uma doença autoimune que ocorre quando o sistema imunitário, que normalmente protege o corpo de infeções, começa a atacar tecidos e órgãos saudáveis.
Existem diferentes tipos, sendo o lúpus eritematoso sistémico (LES) o mais comum e aquele que afeta vários órgãos. Outros tipos, como o lúpus discoide, atingem sobretudo a pele. Medicamentos e mudanças no estilo de vida podem ajudar a reduzir sintomas e a prevenir crises.
Continue a ler e conheça causas, sintomas, diagnóstico e tratamento desta doença crónica.
O que é a doença de lúpus?
Esta é uma doença autoimune crónica na qual o sistema imunitário, que normalmente protege o organismo de infeções, ataca tecidos e órgãos saudáveis. Este processo provoca inflamação e pode afetar vários sistemas do corpo, como articulações, pele, rins, células sanguíneas, cérebro, coração e pulmões.
A condição caracteriza-se por fases de remissão, nas quais os sintomas diminuem, e fases de surto, nas quais os sintomas se agravam. Pode manifestar-se de formas muito diferentes de pessoa para pessoa e, até no mesmo doente, variar ao longo do tempo.
O lúpus apresenta um amplo leque de gravidade, desde formas ligeiras até complicações potencialmente graves, que exigem atenção médica urgente. No entanto, os tratamentos atuais permitem à maioria dos doentes manter uma boa qualidade de vida.
Pode ser de difícil diagnóstico, porque os sintomas imitam frequentemente os de outras doenças. Um dos sinais mais característicos do lúpus é uma erupção cutânea facial em forma de “borboleta”, que se estende pelas bochechas e nariz, embora nem todos os doentes apresentem este sintoma.
Que tipos de lúpus existem?
Quando se fala nesta doença, a maioria das pessoas refere-se ao lúpus eritematoso sistémico (LES), a forma mais comum e, geralmente, a mais grave da doença. No entanto, existem vários tipos de lúpus, que se distinguem pela parte do corpo afetada e pela sua origem.
Lúpus eritematoso sistémico (LES)
O LES representa cerca de 70% dos casos de lúpus e pode afetar múltiplos órgãos e sistemas (daí o nome sistémico), incluindo pele, articulações, rins, pulmões, sangue, coração e cérebro.
Os sintomas variam de pessoa para pessoa e podem ir de ligeiros a graves. É uma forma crónica e potencialmente mais grave, responsável pela maioria das complicações associadas à doença.
Lúpus cutâneo
O lúpus cutâneo afeta principalmente a pele e pode manifestar-se de diferentes formas:
Lúpus cutâneo agudo, associado ao LES, caracteriza-se por erupções transitórias, como a típica erupção facial em “borboleta”;
Lúpus cutâneo subagudo provoca lesões em áreas expostas ao sol. Não causa cicatrizes, mas pode deixar alterações na pigmentação da pele.
Lúpus cutâneo crónico (ou lúpus discoide) manifesta-se por lesões circulares, avermelhadas e descamativas, frequentemente no couro cabeludo, face e orelhas. Estas lesões podem deixar cicatrizes e levar à perda permanente de cabelo, quando atingem o couro cabeludo.
Embora o lúpus cutâneo não afete os órgãos internos, cerca de 10% dos diagnósticos com lúpus discoide podem evoluir para LES.
Lúpus induzido por medicamentos
O lúpus induzido por medicamentos (LID) resulta do uso prolongado de certos fármacos. Os sintomas são semelhantes aos do LES, mas tendem a ser mais ligeiros e reversíveis.
Entre os medicamentos mais frequentemente associados estão hidralazina, usada para hipertensão, procainamida, para arritmias cardíacas, isoniazida, para tuberculose, e minociclina, para doenças de pele.
Geralmente, o LID desaparece em poucos meses após a interrupção do medicamento que o causou.
Lúpus neonatal
O lúpus neonatal é uma forma rara e temporária da doença que pode afetar bebés de mães com lúpus ou síndrome de Sjögren.
Acontece quando anticorpos autoimunes passam da mãe para o feto através da placenta. O recém-nascido pode apresentar erupções cutâneas, alterações hepáticas ou diminuição das células sanguíneas.
Por norma, os sintomas desaparecem nas primeiras semanas de vida, embora alguns bebés possam desenvolver bloqueio cardíaco congénito, uma complicação mais grave que pode exigir acompanhamento especializado.
Quais as causas e fatores de risco?
A causa exata não é totalmente conhecida, mas acredita-se que resulte de uma combinação de fatores genéticos, hormonais, ambientais e imunológicos. Entre os principais fatores de risco estão:
Predisposição genética. Ter familiares com lúpus ou outras doenças autoimunes;
Sexo feminino. A doença é 9 vezes mais frequente nas mulheres, sobretudo em idade fértil;
Exposição solar excessiva, que pode desencadear ou agravar sintomas;
Infeções virais, como Epstein-Barr;
Certos medicamentos;
Alterações hormonais, particularmente estrogénios.
Quais os sintomas do lúpus?
O lúpus pode manifestar-se de formas muito diferentes, tanto na intensidade como no tipo de sintomas, e varia de pessoa para pessoa. Alguns doentes têm episódios ligeiros, com sinais cutâneos e cansaço, e outros apresentam o envolvimento de órgãos internos, que exige tratamento especializado.
Sintomas gerais:
Fadiga intensa ou sensação de cansaço persistente;
Febre de causa desconhecida, por vezes intermitente;
Perda de apetite e, em alguns casos, emagrecimento.
Pele e mucosas:
Erupção em “asa de borboleta” nas bochechas e no nariz, um sinal clássico, embora nem todos o apresentem;
Fotossensibilidade, com erupções ou agravamento das lesões após exposição solar;
Lúpus discoide ou lesões discoides, com placas arredondadas, espessadas e descamativas, que podem cicatrizar e provocar perda de cabelo quando localizadas no couro cabeludo;
Feridas na boca ou cavidade nasal.
Sistema músculo-esquelético:
Dores articulares (artralgias) e artrite, frequentemente simétricas e com predomínio nas mãos, punhos, joelhos e tornozelos;
Rigidez matinal e limitação funcional podem estar presentes.
Rins:
Nefrite lúpica, que pode manifestar-se por espuma na urina, retenção de líquidos, diminuição da produção urinária ou alterações nas análises (proteinúria, hematúria). É uma das complicações mais sérias do LES e exige diagnóstico e tratamento precoces.
Sangue e sistema imunitário:
Anemia, leucopenia ou trombocitopenia (alterações das células sanguíneas);
Tendência para tromboses, em doentes com anticorpos antifosfolípido.
Pulmões e coração:
Dor torácica ao respirar (pleurisia), pericardite ou outras complicações respiratórias;
Pode surgir falta de ar (dispneia) e dor torácica persistente.
Sistema nervoso:
Cefaleias persistentes, alterações cognitivas, mudanças de humor, convulsões ou défice neurológico agudo, nos casos mais graves.
Fenómenos vasomotores:
Síndrome de Raynaud, caracterizado por palidez, coloração azulada ou rubor dos dedos das mãos e dos pés, desencadeado pelo frio ou por emoções fortes.
Sinais de alarme: quando procurar ajuda médica urgente
Procure atendimento médico imediato se ocorrer:
Dificuldade respiratória súbita ou dor torácica intensa;
Diminuição acentuada da produção de urina ou inchaço generalizado;
Défice neurológico súbito (fraqueza, fala arrastada, desmaio) ou convulsões;
Febre elevada persistente, que não cede com antipiréticos.
Estes podem ser sinais de complicações graves que exigem avaliação hospitalar urgente.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico tem por base a avaliação clínica, análises laboratoriais e exames complementares. Não existe um teste único que confirme a doença, sendo necessário reunir um conjunto de critérios clínicos e imunológicos.
Os exames mais utilizados incluem:
Anticorpos antinucleares (ANA), presentes na maioria dos casos, embora não sejam específicos;
Anticorpos anti-dsDNA e anti-Sm, mais específicos do lúpus eritematoso sistémico;
Análises ao sangue e urina, para detetar anemia, leucopenia, trombocitopenia ou alterações renais;
Exames de imagem, quando há suspeita de envolvimento pulmonar, cardíaco ou neurológico.
O diagnóstico é habitualmente feito por um reumatologista, em articulação com outros especialistas, consoante os órgãos afetados.
Quais as opções de tratamento?
Não existe cura definitiva, mas os tratamentos atuais permitem controlar eficazmente os sintomas e prevenir danos nos órgãos.
O tratamento é individualizado, conforme os órgãos envolvidos e atividade da doença:
Hidroxicloroquina: base do tratamento na maioria dos doentes; requer monitorização oftalmológica periódica.
AINE: dor/inflamação articular ligeira (avaliar risco GI/renal).
Corticosteroides: para controlar surtos; usar menor dose/tempo possível.
Imunossupressores (por exemplo: azatioprina, micofenolato, metotrexato, ciclofosfamida), conforme a gravidade da doença ou órgão afetado.
Biológicos: belimumabe e anifrolumabe em LES moderado a grave selecionado.
Vacinação e infeções: rever vacinas inativadas antes e durante terapias imunossupressoras; rastrear tuberculose e hepatites quando indicado.
O tratamento deve ser acompanhado por monitorização regular e adoção de um estilo de vida saudável.
Como viver com a doença?
Viver com lúpus implica aprendizagem, adaptação e acompanhamento contínuo. Alguns cuidados ajudam a manter o bem-estar, tais como:
Evitar exposição solar direta e usar protetor solar diariamente;
Cumprir rigorosamente o tratamento e as consultas médicas;
Adotar uma alimentação equilibrada e descanso adequado;
Gerir o stress e respeitar os períodos de fadiga;
Praticar exercício físico leve a moderado;
Evitar tabaco e álcool em excesso.
O apoio psicológico e o contacto com associações de doentes também são importantes para melhorar a qualidade de vida.
Qual a relação entre lúpus, síndrome de Raynaud e síndrome de Sjögren?
Estas três condições podem coexistir em alguns doentes e partilham uma base autoimune.
Síndrome de Raynaud: provoca alterações na circulação sanguínea dos dedos, que ficam brancos ou azulados com o frio ou o stress. É comum em doentes com lúpus;
Síndrome de Sjögren: caracteriza-se por secura dos olhos e boca, devido a inflamação das glândulas exócrinas. Pode ocorrer isoladamente ou associada ao lúpus.
O reconhecimento precoce destas associações é essencial, uma vez que pode alterar o acompanhamento e o tratamento.
Perguntas frequentes sobre o lúpus
O lúpus é uma doença relativamente rara que levanta muitas dúvidas entre doentes e familiares. Passamos a esclarecer as mais comuns.
Quem tem lúpus pode engravidar?
Sim, mas a gravidez deve ser planeada e acompanhada por uma equipa médica experiente. O controlo da doença antes da conceção reduz o risco de complicações.
Que especialidade médica trata o lúpus?
O lúpus é seguido principalmente por reumatologistas, mas pode envolver nefrologistas, dermatologistas, cardiologistas, entre outros.
Quem tem lúpus pode apanhar sol?
Deve evitar exposição solar direta e usar protetor solar com fator alto (≥50). A luz UV pode agravar sintomas cutâneos e desencadear surtos.
O lúpus é contagioso?
Não. É uma doença autoimune, não transmissível por contacto, sangue ou qualquer outra via.