Hemoglobina glicada (HbA1c): o que é e como interpretar os valores
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H1.Hemoglobina glicada (HbA1c): o que é e como interpretar os valores
A hemoglobina glicada, ou HbA1c, é uma análise que permite estimar a glicemia média dos últimos dois a três meses.
Ao contrário de uma medição pontual da glicose, que mostra o valor naquele momento, a HbA1c ajuda a perceber como a glicemia se tem comportado ao longo do tempo.
É utilizada para ajudar a identificar pré-diabetes e diabetes tipo 2 e para acompanhar pessoas que já vivem com diabetes.
Mas interpretar o resultado exige algum cuidado.
Uma HbA1c de 6,5% ou mais pode cumprir um dos critérios laboratoriais para diabetes, mas um resultado isolado não deve ser transformado automaticamente num diagnóstico. Na ausência de sintomas inequívocos ou hiperglicemia clara, é normalmente necessário confirmar a alteração.
O que é a hemoglobina glicada?
A hemoglobina é uma proteína presente nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigénio.
A glicose que circula no sangue liga-se naturalmente a uma pequena parte dessa hemoglobina.
A HbA1c mede precisamente a proporção de hemoglobina que ficou ligada à glicose.
Quanto maior tiver sido a exposição à glicose ao longo do tempo, maior tende a ser a percentagem de HbA1c.
Porque representa vários meses?
Os glóbulos vermelhos permanecem na circulação aproximadamente durante três meses.
Enquanto circulam, a hemoglobina vai ficando progressivamente exposta à glicose.
É por isso que a análise permite obter uma visão aproximada dos últimos dois a três meses, em vez de mostrar apenas o que aconteceu naquele dia.
O resultado não representa, contudo, todos os dias com exatamente a mesma importância.
Os níveis de glicose das semanas mais recentes influenciam mais o resultado do que os de alguns meses atrás.
HbA1c significa o mesmo que A1C?
Sim.
Pode encontrar diferentes designações:
HbA1c;
A1C;
hemoglobina glicada;
hemoglobina A1c;
glic hemoglobina.
Na prática, referem-se ao mesmo marcador.
É preciso estar em jejum?
Não.
Ao contrário da glicemia em jejum, a HbA1c não exige jejum.
Isto significa que a refeição que acabou de fazer não altera de forma significativa o resultado.
No entanto, se tiver outras análises marcadas para o mesmo momento — colesterol ou glicemia em jejum, por exemplo — pode existir indicação para jejum por causa desses exames.
Siga sempre as instruções fornecidas pelo laboratório ou profissional de saúde.
Como interpretar os valores da HbA1c?
A HbA1c é habitualmente apresentada em percentagem (%).
Alguns laboratórios também apresentam o resultado em mmol/mol, de acordo com a padronização internacional IFCC.
Para adultos não grávidos, um dos enquadramentos clínicos mais utilizados considera:
abaixo de 5,7%: intervalo sem critérios laboratoriais de pré-diabetes;
5,7% a 6,4%: intervalo de pré-diabetes ou risco aumentado;
6,5% ou superior: valor compatível com um dos critérios de diagnóstico de diabetes.
Em unidades IFCC, estes intervalos correspondem aproximadamente a:
menos de 39 mmol/mol;
39 a 47 mmol/mol;
48 mmol/mol ou mais.
A DGS inclui uma HbA1c igual ou superior a 6,5% entre os critérios utilizados para diagnosticar diabetes.
HbA1c abaixo de 5,7% significa que está tudo bem?
É um resultado tranquilizador relativamente a este marcador, mas não deve ser interpretado isoladamente.
Uma pessoa pode apresentar outros fatores de risco como:
excesso de peso;
obesidade abdominal;
hipertensão;
familiares próximos com diabetes;
sedentarismo;
alterações dos triglicéridos;
antecedentes de diabetes gestacional.
Por isso, um resultado dentro do intervalo habitual não substitui a avaliação global do risco metabólico.
O que significa HbA1c entre 5,7% e 6,4%?
Este intervalo é frequentemente utilizado para identificar pessoas com pré-diabetes ou risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2.
Não significa que a progressão para diabetes seja inevitável.
O risco não é igual em todo o intervalo: de forma geral, tende a aumentar à medida que a HbA1c se aproxima de 6,5%.
Pode aprofundar este tema no nosso artigo sobre pré-diabetes.
Uma HbA1c de 6,5% significa automaticamente diabetes?
Não necessariamente a partir de uma única análise.
Uma HbA1c igual ou superior a 6,5% é um dos critérios laboratoriais utilizados para o diagnóstico.
Mas, se não existirem sintomas claros de hiperglicemia, o resultado deve normalmente ser confirmado através:
de uma nova HbA1c;
de glicemia em jejum.
de outro teste diagnóstico apropriado.
As recomendações atuais exigem, em geral, dois resultados anormais quando não existe hiperglicemia inequívoca.
E se um teste estiver alterado e outro normal?
Pode acontecer.
Por exemplo, uma pessoa pode apresentar:
HbA1c elevada e glicemia em jejum normal;
glicemia elevada e HbA1c abaixo do limite diagnóstico.
Estes exames não medem exatamente a mesma coisa, uma vez que há individuos mesmo glicémias em jejum dentro da normalidade, fazem picos de glicémia alta após as refeições, aumentando assim a HBA1c.
Quando os resultados não são concordantes, pode ser necessário repetir testes e perceber se existem fatores capazes de alterar algum dos valores.
Qual deve ser a HbA1c de uma pessoa com diabetes?
Aqui existe uma distinção fundamental:
o valor utilizado para diagnosticar diabetes não é automaticamente o objetivo do tratamento.
Para muitos adultos não grávidos com diabetes, as recomendações atuais utilizam frequentemente um objetivo de HbA1c inferior a 7%.
Mas esse objetivo deve ser individualizado.
Pode ser diferente consoante:
idade, nos mais idosos e com doença cardiovascular pré existente o valor pretendido pode ser menos baixo por risco das hipoglicémias
duração da diabetes;
risco de hipoglicemia;
doenças cardiovasculares;
doença renal;
fragilidade;
outras doenças;
tratamentos utilizados;
preferências da pessoa.
Em algumas pessoas podem ser adequados objetivos mais baixos. Noutras, metas menos exigentes podem ser clinicamente mais seguras.
Qual é a diferença entre HbA1c e glicemia?
As duas análises estão relacionadas, mas respondem a perguntas diferentes.
Glicemia: uma fotografia daquele momento
A glicemia mostra a quantidade de glicose presente no sangue no momento da medição.
Pode variar rapidamente em função de:
alimentação;
exercício;
stress;
doença;
medicação;
hora do dia.
Uma glicemia em jejum, por exemplo, procura avaliar o valor após várias horas sem ingestão calórica.
HbA1c: uma visão de vários meses
A HbA1c funciona mais como uma visão de longo prazo.
Um almoço particularmente rico em hidratos de carbono no dia anterior não é suficiente para alterar significativamente a HbA1c.
Da mesma forma, alguns dias de alimentação mais cuidada não apagam os valores das semanas anteriores.
É precisamente esta estabilidade que torna a análise útil.
A HbA1c mostra picos de glicemia?
Não diretamente.
Duas pessoas podem apresentar a mesma média de glicose e padrões muito diferentes ao longo do dia.
Por exemplo, uma pode ter valores relativamente estáveis e outra apresentar grandes oscilações entre valores altos e baixos.
A HbA1c pode acabar por ser semelhante nas duas situações.
Por isso, nas pessoas com diabetes, pode ser necessário complementar esta informação com:
medições de glicemia;
monitorização contínua da glicose em alguns casos;
sintomas;
episódios de hipoglicemia;
outros dados clínicos.
O que é a glicemia média estimada?
Alguns relatórios podem transformar a HbA1c numa glicemia média estimada, frequentemente designada eAG.
O objetivo é apresentar uma estimativa em unidades semelhantes às utilizadas nas medições de glicemia, como mg/dL.
É uma estimativa calculada a partir da HbA1c e não corresponde à média exata de todas as medições realizadas ao longo de três meses.
O que pode alterar o resultado da HbA1c?
A HbA1c depende não só da glicose, mas também dos glóbulos vermelhos e da hemoglobina.
Qualquer condição que altere a produção, destruição ou duração de vida dos glóbulos vermelhos pode modificar o resultado.
Este é um dos motivos pelos quais uma HbA1c inesperadamente alta ou baixa deve ser interpretada com cuidado.
Anemia por deficiência de ferro
A deficiência de ferro pode, em algumas situações, estar associada a valores de HbA1c artificialmente mais elevados.
O NGSP recomenda cautela na interpretação quando existe anemia ferropénica importante.
Isto torna particularmente importante conhecer o contexto clínico quando existem alterações simultâneas como uma ferritina baixa.
Perda de sangue ou destruição dos glóbulos vermelhos
Situações que reduzem o tempo de vida dos glóbulos vermelhos podem produzir valores artificialmente mais baixos.
Entre os exemplos encontram-se:
hemorragia recente significativa;
anemia hemolítica;
algumas doenças hematológicas.
Quando os glóbulos vermelhos circulam durante menos tempo, existe menos oportunidade para a hemoglobina ficar exposta à glicose.
Transfusões de sangue
Uma transfusão recente pode dificultar a interpretação da HbA1c porque passa a existir uma mistura entre os glóbulos vermelhos da própria pessoa e os recebidos.
O resultado pode não refletir corretamente a glicemia média anterior.
Variantes da hemoglobina
Algumas variantes genéticas da hemoglobina podem interferir com determinados métodos laboratoriais.
O efeito depende:
do tipo de variante;
do método utilizado pelo laboratório;
da existência ou não de anemia associada.
Os métodos modernos reduziram muitos destes problemas, mas a interferência continua a ser relevante em determinadas pessoas.
Doença renal
A doença renal avançada pode dificultar a interpretação da HbA1c.
Anemia, utilização de eritropoietina e alterações relacionadas com insuficiência renal podem fazer com que o resultado represente de forma menos fiel a exposição à glicose.
Nestes casos, o médico pode necessitar de utilizar outros indicadores.
E durante a gravidez?
A HbA1c não é utilizada da mesma forma para diagnosticar diabetes gestacional.
Durante a gravidez existem alterações fisiológicas que afetam os glóbulos vermelhos e o metabolismo da glicose.
O diagnóstico de diabetes gestacional utiliza critérios e exames específicos.
Como saber se o meu resultado pode estar errado?
Um sinal importante é existir uma discrepância significativa entre a HbA1c e outras medições de glicose.
Por exemplo:
glicemias repetidamente normais com HbA1c inesperadamente elevada;
glicemias frequentemente altas com HbA1c surpreendentemente baixa.
Nestes casos, faz sentido investigar possíveis interferências antes de tomar decisões baseadas apenas no número.
O que fazer quando a HbA1c está elevada?
O primeiro passo depende do valor e de saber se a pessoa já tem ou não diagnóstico de diabetes.
Se não tem diabetes diagnosticada
Uma HbA1c elevada deve ser interpretada por um profissional de saúde.
Pode ser necessário:
repetir a análise;
medir glicemia em jejum;
realizar uma prova de tolerância à glicose em determinadas situações;
avaliar outros fatores de risco;
verificar se existe alguma condição que esteja a interferir com a HbA1c.
Não deve concluir apenas pelo resultado que “tem diabetes”.
Se o resultado estiver no intervalo de pré-diabetes
Esta fase representa uma oportunidade importante para atuar.
Medidas que podem ajudar incluem:
aumentar a atividade física;
reduzir o sedentarismo;
melhorar a qualidade da alimentação;
controlar o peso quando existe excesso;
dormir adequadamente;
controlar tensão arterial e lípidos.
Estas medidas podem melhorar a resistência à insulina e reduzir o risco de progressão para diabetes tipo 2.
A alimentação pode baixar a HbA1c?
Pode contribuir para melhorar o controlo glicémico ao longo do tempo.
Não existe, contudo, um alimento isolado capaz de “baixar a HbA1c”.
O objetivo é melhorar o padrão alimentar global.
Pode ser útil privilegiar:
hortícolas;
leguminosas;
fruta;
cereais integrais;
proteínas adequadas;
frutos secos;
azeite.
Também pode fazer sentido reduzir a frequência de:
bebidas açucaradas;
alimentos muito ricos em açúcares adicionados;
refeições de elevada densidade energética;
alguns alimentos ultraprocessados.
Aprender como ler os rótulos dos alimentos pode ajudar a fazer escolhas mais informadas.
É preciso deixar de comer hidratos de carbono?
Não.
Uma HbA1c elevada não significa que seja necessário eliminar todos os hidratos de carbono.
Fruta, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos que contêm hidratos de carbono podem integrar uma alimentação equilibrada.
Quantidade, qualidade, fibra, combinação da refeição e necessidades individuais são mais importantes do que simplesmente eliminar um nutriente inteiro.
O exercício pode fazer diferença?
Sim.
A atividade física ajuda os músculos a utilizar glicose e pode melhorar a sensibilidade à insulina.
É útil combinar, quando possível:
atividade aeróbia;
caminhada;
treino de força;
redução dos períodos prolongados sentado.
Quem está sedentário pode começar de forma progressiva com o nosso guia sobre como começar a fazer exercício físico.
E se já tiver diabetes?
Uma HbA1c acima do objetivo pode levar à revisão de:
alimentação;
atividade física;
adesão à medicação;
doses;
horários;
outros medicamentos;
doenças intercorrentes;
risco de hipoglicemia.
Não deve alterar medicação por iniciativa própria apenas com base num resultado.
Pode consultar também o nosso artigo sobre diabetes tipo 2.
Com que frequência deve repetir?
Depende da situação.
Quem está apenas a ser avaliado por risco de diabetes pode necessitar de controlo com uma frequência diferente de alguém já diagnosticado.
Nas pessoas com diabetes, a periodicidade depende do controlo glicémico e de alterações recentes no tratamento.
Se os valores estiverem estáveis e dentro do objetivo, as medições podem ser menos frequentes. Quando existe alteração terapêutica ou controlo insuficiente, o médico pode pedir HbA1c mais vezes.
Em resumo
A HbA1c mostra a quantidade de hemoglobina ligada à glicose e permite estimar a glicemia média dos últimos dois a três meses.
Não necessita de jejum e é utilizada tanto na avaliação de pré-diabetes e diabetes tipo 2 como no acompanhamento de pessoas que já vivem com diabetes.
De forma geral, valores abaixo de 5,7%, entre 5,7% e 6,4% e iguais ou superiores a 6,5% correspondem, respetivamente, a diferentes níveis de risco e critérios laboratoriais.
Mas um número isolado não conta toda a história.
Anemia, hemorragias, variantes da hemoglobina, transfusões, gravidez ou doença renal podem alterar o resultado.
A interpretação correta deve integrar a HbA1c com outras análises, antecedentes clínicos e fatores de risco.