Inteligência Artificial na Saúde - O que dizem os portugueses
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A inteligência artificial na saúde é hoje uma realidade para uma parte crescente da população portuguesa. Segundo o Estudo Nacional de Saúde 2025, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, cerca de 38% dos portugueses já recorreu a ferramentas de IA para esclarecer dúvidas ou obter informações de saúde. Este valor, recolhido entre agosto e setembro de 2025 numa amostra representativa de 953 indivíduos, revela uma mudança nos comportamentos digitais em contexto de saúde que merece análise cuidada. O presente artigo apresenta os principais dados do estudo, contextualiza os padrões de utilização por grupo etário e classe social, e discute o que estas tendências implicam para a literacia em saúde em Portugal. O conteúdo é de natureza informativa e não substitui aconselhamento médico individual.
O que revela o Estudo Nacional de Saúde 2025
O Estudo Nacional de Saúde 2025 é um estudo de âmbito nacional, desenvolvido pela Marktest a pedido da Medicare, com recolha de dados realizada entre 25 de agosto e 6 de setembro de 2025. A amostra, constituída por 953 entrevistas, é representativa da população portuguesa continental entre os 18 e os 64 anos, com margem de erro máxima de ±3,17 pontos percentuais para um intervalo de confiança de 95%.
O capítulo de Comportamentos Digitais e Inteligência Artificial na Saúde debruça-se sobre a forma como os portugueses integram a tecnologia nas suas decisões e hábitos de saúde. Os dados revelam um cenário de adoção crescente, mas também de fragmentação e ceticismo, que importa compreender com rigor.
Como os portugueses usam a tecnologia na saúde
A maioria dos portugueses já incorporou a tecnologia no seu percurso de saúde, ainda que com finalidades diversas. Segundo o estudo, as três utilizações mais comuns são o agendamento de consultas (54,1%), a procura de sintomas ou autodiagnóstico (39,2%) e a monitorização da saúde através de dispositivos ou aplicações de bem-estar (26,6%).
O recurso à tecnologia para aconselhamento em nutrição e fitness atinge 23,9% da população, enquanto as teleconsultas ainda têm uma expressão mais limitada, com 9,7% de utilizadores regulares.
Apenas 1 em cada 10 portugueses afirma não recorrer à internet ou à tecnologia para temas de saúde, justificando essa opção pela falta de confiança nestes meios (9,5%).
Em paralelo, 35% dos portugueses costuma procurar informações de saúde nas redes sociais, um valor que sobe para 41% entre o género feminino e para 50,7% na faixa etária dos 18 aos 24 anos. Estes dados reforçam a necessidade de garantir que a informação disponível nestes canais seja tecnicamente correta e proveniente de fontes credenciadas.
Quem usa mais inteligência artificial e porquê
Cerca de 38% dos portugueses já utilizou a inteligência artificial, por exemplo através de ferramentas como o ChatGPT, para esclarecer dúvidas ou obter informações sobre saúde. Trata-se de um valor expressivo, que coloca Portugal num contexto de adoção acelerada destas tecnologias em contextos não clínicos.
A utilização de IA na saúde é mais elevada entre os grupos mais jovens: na faixa dos 18 aos 24 anos, este valor atinge os 62,6%, e entre os 25 e os 34 anos chega aos 54,3%. A classe social A/B também se destaca, com 53% de utilizadores.
Na prática clínica, estes dados traduzem-se num cenário em que uma parte significativa dos doentes chega à consulta já com informação pesquisada ou interpretada com recurso a ferramentas de IA. Esta realidade exige dos profissionais de saúde uma postura informada sobre as limitações dessas ferramentas, e dos cidadãos, uma leitura crítica da informação obtida por estes meios.
A procura de sintomas através da internet é particularmente elevada na faixa etária dos 35 aos 44 anos (45,6%) e na classe social A/B (43,8%), o que sugere uma correlação entre literacia digital e comportamento de autodiagnóstico.
Os portugueses confiam na IA para diagnóstico?
Os dados do estudo revelam uma divisão clara de opiniões. Quando questionados sobre a fiabilidade da inteligência artificial no diagnóstico de problemas de saúde nos próximos dois anos, os portugueses dividem-se em três grupos de dimensão semelhante: cerca de 32,1% considera que a IA será uma forma fiável de diagnóstico (nota 7 a 10 numa escala de 0 a 10); 31,4% mantém uma posição neutra (nota 5 a 6); e 31% considera que não será fiável (nota 0 a 4). Os restantes 5,5% não sabem ou não respondem.
Este equilíbrio de opiniões é, em si mesmo, um dado relevante. Indica que a confiança na IA aplicada à saúde está ainda em construção, e que a população portuguesa não adotou uma posição monolítica sobre o tema.
Por grupos, os homens e os indivíduos de classe social A/B revelam maior confiança na IA como ferramenta de diagnóstico. Entre os 18 e os 24 anos, paradoxalmente, mais de 36% considera que a IA não será fiável. O grupo que mais utiliza estas ferramentas é também um dos mais céticos quanto à sua fiabilidade clínica.
De acordo com recomendações clínicas e orientações de entidades como a Organização Mundial de Saúde (OMS), as ferramentas de inteligência artificial podem ter um papel útil de suporte à decisão clínica, mas não substituem a avaliação por um profissional de saúde habilitado. A interpretação de sintomas, o diagnóstico diferencial e a prescrição terapêutica continuam a exigir competência médica especializada.
O que estes dados implicam para a literacia em saúde
O conjunto de dados apresentados aponta para uma transformação real nos comportamentos digitais de saúde em Portugal. O uso crescente de IA, redes sociais e aplicações de monitorização não é, por si só, negativo. Pode, de facto, contribuir para uma maior consciência de saúde e para uma participação mais ativa do cidadão no seu próprio cuidado.
No entanto, esta evolução coloca desafios relevantes em matéria de literacia em saúde. A qualidade da informação disponível online é variável. Nem todas as ferramentas de IA são calibradas para contextos clínicos, e a interpretação de sintomas sem enquadramento profissional pode conduzir a conclusões incorretas ou a atrasos no diagnóstico.
Em contexto de acompanhamento médico, os profissionais de saúde devem estar preparados para acolher e contextualizar a informação que os doentes trazem das suas pesquisas digitais, orientando-os para fontes credíveis e explicando os limites dos sistemas automatizados.
Segundo orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), a literacia em saúde é um determinante fundamental do estado de saúde das populações. Capacitar os cidadãos para avaliar criticamente a informação de saúde, incluindo a gerada por ferramentas de IA, é uma prioridade em saúde pública
Quando consultar um profissional de saúde
O recurso a ferramentas digitais de saúde, incluindo a inteligência artificial, pode ser um ponto de partida útil para compreender um sintoma ou organizar uma dúvida. Não deve, porém, substituir a avaliação clínica presencial ou por teleconsulta.
Deve procurar um profissional de saúde sempre que:
Os sintomas persistam por mais de 48 a 72 horas sem melhoria clara;
A intensidade dos sintomas seja acentuada ou se agrave rapidamente;
Surjam sinais de alarme como febre elevada, dor torácica, dificuldade respiratória ou alterações neurológicas;
A informação obtida online gere dúvida ou contradição sobre o que está a sentir;
Esteja a gerir uma doença crónica e necessite de ajuste terapêutico.
A tecnologia e a inteligência artificial são ferramentas ao serviço da saúde. A decisão clínica pertence sempre ao profissional de saúde, em conjunto com o doente.
Perguntas Frequentes sobre Inteligência Artificial na Saúde
Quantos portugueses usam inteligência artificial para questões de saúde?
Segundo o Estudo Nacional de Saúde 2025, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, cerca de 38% dos portugueses já utilizou a inteligência artificial para esclarecer dúvidas ou obter informações sobre saúde. O valor é mais elevado entre jovens adultos (18-34 anos) e indivíduos de classe social A/B.
A inteligência artificial na saúde pode substituir uma consulta médica?
Não. A inteligência artificial pode apoiar a pesquisa de informação geral, mas não tem capacidade de realizar um diagnóstico clínico individualizado. Segundo orientações da OMS e da DGS, a avaliação médica por um profissional habilitado é insubstituível, em particular perante sintomas persistentes, agudos ou de causa desconhecida.
Os portugueses confiam na IA para diagnóstico médico?
Os dados do estudo revelam uma opinião dividida. Cerca de 32% considera que a IA será uma forma fiável de diagnóstico nos próximos dois anos, 31% mantém uma posição neutra, e outros 31% não acredita na sua fiabilidade clínica. A confiança é maior entre homens e classes sociais mais elevadas.
Quem usa mais ferramentas digitais de saúde em Portugal?
O uso de internet e tecnologia para temas de saúde é transversal, mas destaca-se nas faixas etárias mais jovens (18-34 anos) para monitorização e nutrição, e na faixa dos 35-44 anos para procura de sintomas e autodiagnóstico. A classe social A/B apresenta consistentemente valores acima da média.
É seguro procurar sintomas na internet ou em aplicações de IA?
A pesquisa de informação em fontes digitais credíveis pode ser um complemento útil. Contudo, o autodiagnóstico digital apresenta limitações relevantes: as ferramentas de IA não conhecem o historial clínico do utilizador, não realizam exame físico e podem gerar interpretações incorretas. Toda a informação obtida deve ser validada com um profissional de saúde.
Que percentagem de portugueses procura saúde nas redes sociais?
De acordo com o Estudo Nacional de Saúde 2025, 35% dos portugueses costuma procurar informações de saúde nas redes sociais. Este valor sobe para 41% no género feminino e para 50,7% na faixa etária dos 18 aos 24 anos, o que reforça a importância da qualidade e rigor do conteúdo de saúde publicado nestes canais