A ciência confirma que o intestino é o nosso “segundo cérebro”?
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A ciência confirma que o intestino é o nosso “segundo cérebro”?
Já sentiu “borboletas no estômago” antes de uma apresentação importante ou perdeu o apetite após receber uma notícia stressante? Estas sensações não são coincidências ou figuras de estilo; são manifestações físicas de um diálogo complexo e ininterrupto entre o intestino e o cérebro.
Tradicionalmente, olhamos para o sistema digestivo como uma máquina de processamento de combustível, mas a ciência moderna revela uma realidade muito mais fascinante.
Muitos especialistas até já não hesitam em dizer que o intestino é o nosso “segundo cérebro”. Mas será esta uma metáfora exagerada ou uma confirmação biológica? Neste artigo, esclarecemos como esta ligação pode moldar a nossa saúde mental, o nosso sistema imunitário e o nosso bem-estar geral.
A relação entre o intestino e o cérebro
O cérebro humano contém aproximadamente 86 mil milhões de neurónios. O intestino, por sua vez, possui um sistema nervoso próprio (o sistema nervoso entérico), composto por mais de 100 milhões de neurónios ligados ao cérebro, principalmente através do nervo vago.
Como o nervo vago liga o intestino e o cérebro, estes dois órgãos estão em constante comunicação.
Por isso, quando vemos a nossa próxima refeição, o cérebro sinaliza o intestino para se preparar para a chegada do alimento. Por outro lado, em caso de stress ou ansiedade, podemos ter sintomas como náuseas, diarreia, dor abdominal ou as chamadas “borboletas no estômago”.
O mesmo é válido relativamente às mensagens do intestino para o cérebro. Por exemplo, quando comemos algo que nos faz mal, instintivamente evitamos o alimento e até o local onde o consumimos.
Sendo assim, a relação entre o intestino e o cérebro parece recíproca. A seguir, esclarecemos se, de facto, o intestino é o “segundo cérebro” e por que é importante prestar atenção aos sinais que o intestino dá.
O intestino é uma espécie de “segundo cérebro”?
Dizer que o intestino é o nosso “segundo cérebro” faz sentido do ponto de vista funcional, ao considerarmos a extensa rede de neurónios do sistema nervoso entérico.
Além desta, o intestino apresenta outras semelhanças com o cérebro. Uma delas é a massa de tecido neural no intestino, que produz mais de 30 neurotransmissores diferentes, moléculas essas tipicamente associadas ao cérebro.
Adicionalmente, 95% da produção e armazenamento de serotonina também fica a cargo da massa de tecido neural no intestino. Este neurotransmissor, conhecido como a hormona da felicidade, desempenha funções essenciais na regulação do humor e do bem-estar.
O sistema nervoso, que faz a ligação mútua entre o intestino e o cérebro, também trabalha a par com o sistema endócrino, cujas hormonas manifestam sensações como stress, fome e saciedade, e com o sistema imunitário, fundamental para responder adequadamente a lesões ou doenças no intestino.
A saúde intestinal influencia a saúde do cérebro?
A interação entre intestino e cérebro pode ajudar a compreender as crescentes evidências de que a saúde intestinal está envolvida na saúde cerebral.
Os sinais gerados no intestino podem influenciar o cérebro significativamente, já que 90% dos neurónios do nervo vago transportam informações do intestino para o cérebro, e não o contrário.
Diversas condições neurológicas, como a doença de Parkinson, a doença de Alzheimer e a perturbação do espetro do autismo, têm sido associadas a alterações gastrointestinais ou da microbiota intestinal.
Por exemplo, os estudos sobre a doença de Parkinson sugerem que uma microbiota intestinal disfuncional é típica desta condição neurológica. Os danos no trato digestivo superior, como os causados por refluxo gastroesofágico ou úlceras crónicas, aumentam o risco de desenvolver Parkinson anos depois.
Além disso, o desequilíbrio da microbiota intestinal pode desencadear uma resposta imunitária, já que mais de 70% das células imunitárias do organismo são direcionadas ao sistema digestivo. Este processo significa que uma resposta imunitária intestinal pode desencadear uma inflamação no corpo.
Entre as condições e sintomas associados à interação entre intestino e cérebro, destacam-se:
Perturbações de ansiedade e depressão;
Hipersensibilidade visceral (perceção exagerada da dor ou desconforto nos órgãos internos);
Dor torácica não cardíaca;
Dispepsia funcional;
Disfagia funcional;
Fadiga crónica;
Stress crónico;
Cólica infantil;
Dor crónica;
Qual a relação entre a microbiota e a saúde mental?
Os estudos científicos indicam que a dieta ocidental, rica em gorduras e açúcares, altera a microbiota intestinal, o que pode criar uma ponte entre a obesidade e o potencial surgimento de perturbações mentais.
Esta alimentação desequilibrada modifica as bactérias e substâncias do intestino, enviando sinais que desregulam o sistema imunitário, hormonal e neurológico. Esta reação em cadeia pode contribuir para processos inflamatórios e alterações cerebrais que afetam diretamente a nossa saúde mental.
Embora ainda sejam necessários estudos mais abrangentes em humanos, esta descoberta sugere que o intestino pode ser um regulador central do humor e do comportamento.
Segundo esta hipótese, o equilíbrio dos microrganismos que habitam o nosso sistema digestivo poderá tornar-se, no futuro, uma ferramenta terapêutica poderosa para tratar doenças mentais.
Assim, cuidar da alimentação deixa de ser apenas uma questão de peso para se tornar uma estratégia essencial de proteção do cérebro.
Os probióticos e prebióticos ajudam a microbiota?
Os probióticos ajudam a reforçar as bactérias benéficas do intestino, enquanto os prebióticos servem de alimento a esses microrganismos. Em conjunto, podem contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal e para a regulação do eixo intestino-cérebro.
Consumir diversos alimentos integrais e vegetais contribui para uma microbiota intestinal saudável e equilibrada, sendo que muitos destes alimentos contêm probióticos e prebióticos. Alguns probióticos podem melhorar os sintomas de stress, depressão e ansiedade.
É possível manipular a microbiota intestinal?
Sim, a manipulação da microbiota pode ser feita de diversas maneiras, incluindo transplante de microbiota fecal, uma alternativa para o tratamento da infeção causada por Clostridium difficile.
Estudos sugerem que uma microbiota mais saudável pode ajudar a aliviar sintomas gastrointestinais, neurológicos e inflamatórios.
Conclusão
Em suma, a ciência não só confirma que o intestino é o nosso “segundo cérebro”, como continua a descobrir que a sua influência na nossa vida é mais profunda do que imaginávamos.
A comunicação bidirecional entre o sistema nervoso entérico e o sistema nervoso central mostra que a saúde não é um conjunto de compartimentos isolados, mas sim uma rede integrada onde o que acontece no prato reflete-se diretamente na clareza do pensamento e no equilíbrio emocional.
Cuidar da microbiota através de uma alimentação rica em fibras, prebióticos e probióticos é, portanto, muito mais do que uma escolha estética ou digestiva; é um investimento na longevidade cognitiva e mental. Ao ouvir os sinais do seu intestino e nutrir as bactérias que o habitam, está, literalmente, a alimentar a sua mente.