Síndrome de Marfan: a doença rara que afeta os tecidos conjuntivos
• 5 mins. leitura
Índice
- 1. Causas da síndrome de Marfan
- 2. Sintomas
- 3. Diagnóstico
- 4. Tratamento
- 5. Prognóstico
H1. Síndrome de Marfan: a doença rara que afeta os tecidos conjuntivos
Cerca de uma em cada 4000 pessoas nascem com a síndrome de Marfan, uma das doenças hereditárias mais comuns que afeta o tecido conjuntivo.
Uma vez que o tecido conjuntivo é o mais abundante do organismo, esta doença autossómica dominante pode afetar múltiplos sistemas. As manifestações surgem mais frequentemente no coração e nos vasos sanguíneos, bem como nos ossos, articulações e olhos.
Algumas das suas características podem ser potencialmente fatais, destacando-se a dilatação da aorta, o principal vaso sanguíneo responsável por transportar o sangue do coração para o resto do corpo.
Além destes órgãos, os pulmões, a pele e o sistema nervoso também podem ser envolvidos, contribuindo para a grande variabilidade clínica da doença.
Causas da síndrome de Marfan
Ao contrário de outras condições genéticas, as causas da síndrome de Marfan são conhecidas. Em cerca de 90% dos casos, a doença resulta de mutações no gene da fibrilina-1 (FBN1).
Estas mutações levam a uma desregulação da via do fator de crescimento transformador beta (TGF-β), com aumento da sua atividade, o que compromete a integridade e a função do tecido conjuntivo em todo o organismo.
Em cerca de 25% dos casos, a mutação surge de forma espontânea, não sendo herdada de nenhum dos pais. Nos restantes 75%, a síndrome é transmitida por um dos progenitores portador da mutação.
Fatores de risco
A síndrome de Marfan afeta homens e mulheres de forma semelhante.
Por se tratar de uma condição genética de transmissão autossómica dominante, o principal fator de risco é ter um dos pais com a doença. Nestas situações, o progenitor portador apresenta 50% de probabilidade de transmitir a mutação do gene da fibrilina-1 a cada filho, independentemente do género.
Complicações
Esta condição pode originar várias complicações, envolvendo sobretudo o sistema cardiovascular, ocular, respiratório e musculoesquelético, entre as quais se destacam:
Dilatação da aorta e dissecção da aorta;
Aneurisma da aorta;
Valvopatias, nomeadamente prolapso da válvula mitral e insuficiência aórtica;
Ectasia dural;
Deslocamento do cristalino;
Pneumotórax espontâneo;
Doença bolhosa apical;
Restrição ventilatória secundária a deformidades da parede torácica;
Protrusio acetabuli (condição ortopédica);
Sintomas
Os sinais e sintomas da síndrome de Marfan podem variar, mesmo entre membros da mesma família. Algumas pessoas apresentam apenas sinais leves, enquanto outras desenvolvem complicações que podem ser fatais.
As duas principais características da síndrome de Marfan são o aneurisma da aorta e o deslocamento do cristalino, mas pode afetar várias outras partes do corpo, causando outros sintomas.
As características físicas da doença podem incluir:
Pés chatos;
Miopia acentuada;
Ectopia do cristalino (luxação do cristalino);
Dentes apinhados;
Estatura alta e magra;
Rosto longo e estreito;
Peito escavado ou proeminente;
Estrias (mesmo sem alterações de peso);
Curvatura na coluna vertebral (escoliose);
Hipermobilidade articular;
Membros (braços, pernas e dedos) desproporcionalmente longos.
Diagnóstico
O diagnóstico da síndrome de Marfan pode ser desafiante, uma vez que os sinais e sintomas variam consideravelmente de pessoa para pessoa.
Além disso, nem sempre as manifestações clínicas estão presentes na infância, pelo que a condição pode só ser reconhecida durante a adolescência ou mesmo na idade adulta.
De um modo geral, o diagnóstico baseia-se numa avaliação clínica cuidadosa, que inclui um exame físico completo e a análise detalhada do historial médico pessoal e familiar. Para apoiar e confirmar o diagnóstico, podem ser realizados vários exames complementares, nomeadamente:
Ecocardiograma realizado por um cardiologista;
Exame esquelético realizado por um ortopedista;
Exame com lâmpada de fenda realizado por um oftalmologista para avaliar alterações no cristalino;
Teste genético para mutação no gene da fibrilina-1, podendo também ajudar a excluir outras síndromes genéticas com manifestações semelhantes, como a síndrome de Loeys-Dietz.
Tratamento
O acompanhamento da síndrome de Marfan é habitualmente assegurado pela cardiologia, dada a importância das manifestações cardiovasculares, mas envolve também outras especialidades, como a oftalmologia e a ortopedia, refletindo a natureza multissistémica da doença.
Uma vez que não existe cura, o tratamento centra-se no controlo dos sintomas e na redução do risco de complicações. Para esse efeito, a equipa de saúde deve definir um plano individualizado, que pode incluir:
Monitorização do sistema esquelético, sobretudo durante a infância e a adolescência, fases críticas do crescimento;
Tratamento farmacológico, nomeadamente com betabloqueadores, para reduzir a pressão arterial e o stress exercido sobre a aorta;
Ecocardiograma periódico, frequentemente anual, para avaliar o tamanho e a função do coração e da aorta;
Exames oftalmológicos regulares com lâmpada de fenda, para vigilância de alterações como o deslocamento do cristalino;
Ajustes no estilo de vida, incluindo evitar exercícios de alta intensidade e desportos de contacto, para minimizar o risco de complicações aórticas.
Os antibióticos e outros medicamentos podem ser indicados em situações específicas antes de determinados procedimentos dentários ou geniturinários, com o objetivo de reduzir o risco de endocardite infeciosa.
De acordo com as recomendações atuais, a profilaxia antibiótica não é recomendada de forma rotineira em pessoas com prolapso da válvula mitral isolado, na ausência de critérios de alto risco. Esta medida mantém-se reservada para doentes com maior risco, nomeadamente:
Portadores de próteses valvulares;
História prévia de endocardite;
Algumas cardiopatias congénitas.
A decisão deve ser sempre individualizada e alinhada com as orientações clínicas em vigor, após avaliação médica.
Prognóstico
As complicações cardiovasculares, em particular a dissecção da aorta, continuam a ser a principal causa de mortalidade na síndrome de Marfan, sobretudo nos casos não diagnosticados ou com diagnóstico tardio.
Ainda assim, os progressos significativos no tratamento médico e cirúrgico das manifestações cardiovasculares da doença permitiram uma melhoria substancial do prognóstico. Atualmente, a esperança média de vida das pessoas com síndrome de Marfan ultrapassa os 72 anos, embora possa ser inferior nos homens quando comparada com as mulheres.
De forma geral, os avanços da medicina moderna possibilitam que crianças e adultos com esta condição genética tenham uma vida longa, produtiva e com boa qualidade de vida, desde que beneficiem de diagnóstico precoce e acompanhamento adequado.