Como tratar lombalgias de forma eficaz
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Milhões de pessoas são afetadas pela lombalgia, uma dor que pode ter diversas causas, como lesões musculares, hérnias discais, artrite ou fatores relacionados com o estilo de vida.
Geralmente, esta dor melhora com repouso, fisioterapia e medicamentos, mas pode tornar-se crónica. Saiba, a seguir, como tratar lombalgias e o que pode fazer para aliviar os sintomas.
O que é a lombalgia?
A lombalgia é a dor localizada na região inferior das costas, também chamada zona lombar. Trata-se de uma condição muito frequente, que pode limitar os movimentos e interferir nas atividades diárias.
Consoante a sua duração, a lombalgia pode ser:
Aguda. Dura menos de 4 semanas e é, geralmente, autolimitada. Na maioria das situações, melhora sem necessidade de tratamento médico intensivo;
Subaguda. Tem uma duração entre 4 e 12 semanas;
Crónica. Persiste por mais de 12 semanas, podendo tornar-se incapacitante e afetar significativamente a qualidade de vida.
A dor lombar é a principal causa de absentismo laboral e uma das razões mais comuns para a procura de cuidados de saúde.
O risco aumenta com a idade, sobretudo entre os 30 e os 50 anos, altura em que começam a surgir alterações naturais na coluna, como a redução dos líquidos entre as vértebras e a perda de tónus muscular. Estes fatores tornam a região lombar mais vulnerável a lesões.
Os fatores de risco associados à lombalgia são:
Excesso de peso e obesidade, que aumentam a carga sobre a coluna e as articulações;
Sedentarismo ou atividade física intensa sem preparação, que podem fragilizar ou sobrecarregar a coluna;
Força muscular reduzida, sobretudo na zona abdominal, compromete o suporte da coluna vertebral;
Ocupações fisicamente exigentes, como trabalhos que envolvam levantar pesos, curvar-se frequentemente ou manter posturas prolongadas;
Fatores psicológicos, como stress, ansiedade e depressão, associados a um maior risco de dor lombar;
Estilo de vida pouco saudável, como tabagismo, consumo excessivo de álcool e falta de exercício físico regular.
Quais são as principais causas da lombalgia?
A lombalgia pode ter múltiplas causas, desde lesões simples a doenças mais complexas.
A região lombar da coluna é especialmente vulnerável, porque suporta o peso da parte superior do corpo, proporciona estabilidade, é o ponto de fixação de músculos e ligamentos e participa em quase todos os movimentos corporais. Qualquer alteração ou sobrecarga nesta zona pode desencadear dor.
Distensões e entorses
São as causas mais comuns de dor lombar. Ocorrem quando os músculos, tendões ou ligamentos das costas são esticados ou lesionados. Isto pode acontecer ao levantar algo pesado, fazer movimentos bruscos, curvar-se incorretamente; ou até ao tossir ou espirrar com força.
Hérnia discal
Com a idade ou devido a esforço excessivo, os discos intervertebrais podem romper-se ou sair do lugar, pressionando as raízes nervosas. Essa condição, conhecida como hérnia discal, pode provocar dor lombar intensa e, por vezes, irradiar para as pernas (ciática).
Problemas estruturais da coluna
A lombalgia pode ser causada por várias alterações estruturais, como:
Estenose espinal, estreitamento do canal vertebral que comprime a medula espinal ou os nervos;
Espondilolistese, quando uma vértebra desliza para fora da sua posição;
Escoliose ou outras curvaturas anormais, alterações na curvatura da coluna que podem provocar sobrecarga e dor;
Espondilólise, pequena fratura de stress nos ossos da coluna, comum em atletas jovens.
Artrite e doenças inflamatórias
A osteoartrose é a forma mais comum de artrite que afeta a coluna, associada ao desgaste das articulações.
A espondilite anquilosante é uma doença inflamatória que causa rigidez e dor crónica, podendo levar à fusão das vértebras.
Outras condições, como fibromialgia, também estão associadas a dor lombar generalizada e persistente.
Fraturas
Traumatismos, como quedas ou acidentes de viação, podem causar fraturas na coluna lombar. Pessoas com osteoporose têm maior risco de sofrer fraturas, mesmo com impactos mínimos.
Doenças e condições internas
A dor lombar também pode ser reflexo de problemas em outros órgãos:
Pedras nos rins, infeções renais ou da bexiga;
Aneurisma da aorta abdominal;
Endometriose, quistos ou miomas uterinos;
Tumores ou infeções da coluna vertebral (mais raros, mas possíveis).
Causas temporárias e hormonais
Na gravidez, o aumento do peso e as alterações hormonais e posturais podem causar dor lombar, especialmente no 2.º e 3.º trimestres.
Algumas pessoas sentem dor lombar associada ao ciclo menstrual, ou seja, cólicas menstruais.
O trabalho de parto pode causar dor intensa na zona lombar, sobretudo se o bebé estiver em determinadas posições.
Fatores ligados ao estilo de vida
Uma postura incorreta, quer sentado quer em pé, pode causar lombalgias, bem como o uso excessivo de mochilas ou malas pesadas de forma desequilibrada.
O sedentarismo ou exercício físico intenso sem preparação adequada, maus hábitos no trabalho, como levantar pesos de forma errada, ou passar muitas horas sentado sem apoio lombar, também podem contribuir para o aparecimento da dor lombar.
Quais os sintomas das lombalgias?
A lombalgia pode apresentar diversos sintomas, que diferem em intensidade, duração e localização. A dor pode surgir de forma súbita ou desenvolver-se gradualmente ao longo do tempo, com ou sem causa aparente.
Os sintomas mais comuns são:
Dor na região lombar, que pode ser:
Aguda e súbita, por vezes após um movimento como curvar-se ou levantar algo pesado;
Surda e constante, sem um evento específico que a justifique;
Intermitente (vai e vem) ou contínua;
Localizada na parte inferior das costas ou irradiar para os glúteos, a anca ou a parte de trás da perna (ciática);
Agravada por determinadas posições (como estar curvado, sentado por muito tempo ou ao levantar-se) e aliviada ao deitar.
Rigidez, causando dificuldade em movimentar ou endireitar as costas, especialmente ao acordar ou após longos períodos de inatividade. Pode sentir necessidade de andar ou alongar para aliviar a sensação de “travamento”.
Espasmos musculares, contrações involuntárias e dolorosas dos músculos da zona lombar, que podem surgir após um esforço ou lesão e dificultar caminhar ou até ficar de pé.
Alterações na postura, resultando, por exemplo, na inclinação do tronco para um lado, dificuldade em manter-se ereto ou sensação de que a parte inferior das costas está “achatada” em vez de curvada.
Sensações de dormência ou fraqueza, particularmente se a dor estiver associada a compressão de nervos (como no caso de uma hérnia discal ou estenose espinal).
Como tratar a lombalgia ou aliviar?
A maioria dos casos de lombalgia melhora com medidas conservadoras, como repouso relativo, aplicação de calor ou frio e o uso de analgésicos simples. No entanto, o tratamento ideal depende da causa, gravidade e duração da dor, bem como das necessidades individuais da pessoa afetada.
Cuidados em casa
Nos primeiros dias após o início da dor, é possível adotar estratégias simples que ajudam a aliviar o desconforto:
Manter-se ativo e evitar o repouso prolongado na cama. Continuar com as atividades diárias, dentro do possível, ajuda a acelerar a recuperação e a evitar rigidez muscular;
Aplicar gelo (nas primeiras 48 a 72 horas) para reduzir a inflamação, especialmente se houver suspeita de lesão;
Usar calor local (após as primeiras 72 horas), através de uma bolsa térmica ou banho morno, para aliviar espasmos e rigidez muscular;
Analgésicos de venda livre, como o paracetamol, ibuprofeno ou naproxeno, podem aliviar a dor ligeira a moderada. Pomadas ou cremes tópicos com ação analgésica ou rubefaciente (como o mentol ou a capsaicina) também podem ser úteis;
Adotar posturas confortáveis ao dormir, como de lado com uma almofada entre os joelhos ou de costas com uma almofada sob as coxas, para reduzir a pressão na zona lombar;
Registar os sintomas, nomeadamente, anotar o que provoca, agrava ou alivia a dor ajuda na consulta médica e no diagnóstico adequado.
Tratamento médico
Se os sintomas forem persistentes, intensos ou incapacitantes, é fundamental procurar ajuda médica. Podem ser prescritos medicamentos como:
Anti-inflamatórios não esteroides (AINE), como o ibuprofeno, são geralmente mais eficazes do que o paracetamol isolado;
Relaxantes musculares (como ciclobenzaprina ou tizanidina) para aliviar espasmos intensos, usados com precaução devido a possíveis efeitos adversos;
Opioides ligeiros (como a codeína) podem ser usados por curtos períodos em situações de dor grave;
Em casos crónicos, podem ser considerados antidepressivos tricíclicos ou anticonvulsivantes para modulação da dor.
Também podem ser recomendadas infiltrações com corticosteroides (como o bloqueio da raiz nervosa) para aliviar a dor inflamatória persistente, bem como dispositivos de suporte lombar, em casos selecionados e por tempo limitado.
Abordagens complementares
Como complemento, pode recorrer-se a terapias não farmacológicas, que têm demonstrado benefícios, especialmente em casos de lombalgia persistente:
Fisioterapia, com um programa personalizado com exercícios de fortalecimento, alongamento, correção postural e reabilitação funcional;
Massagem terapêutica que pode reduzir a dor e melhorar a mobilidade, sobretudo quando associada a exercícios;
Ioga e pilates ajudam no fortalecimento e flexibilidade da coluna, com benefício em algumas pessoas;
Acupuntura pode ter efeitos positivos em casos de dor lombar crónica, embora as evidências sejam mistas;
Manipulação espinal (realizada por fisioterapeutas ou osteopatas qualificados) pode ser útil em determinados casos.
Cirurgia
A cirurgia é geralmente reservada para situações onde:
A dor é grave e resistente aos tratamentos conservadores;
Há compressão significativa dos nervos (como em hérnias discais com ciática);
Existem sinais de alarme (perda de controlo intestinal/vesical, défices neurológicos progressivos).
As técnicas cirúrgicas podem incluir:
Discectomia ou laminectomia para aliviar a pressão sobre os nervos;
Fusão espinal para estabilizar a coluna;
Procedimentos minimamente invasivos, como nucleoplastia ou ablação por radiofrequência, em casos selecionados.
Quando é necessário procurar um médico?
Geralmente, a dor lombar é passageira e melhora com medidas simples, como repouso moderado, aplicação de calor ou frio e analgésicos de venda livre. No entanto, existem situações em que é fundamental procurar um médico, especialmente para excluir causas mais graves ou evitar complicações.
Sinais de alerta que exigem atenção médica imediata
Deve procurar cuidados médicos urgentes se, para além da dor lombar, apresentar algum dos seguintes sintomas:
Dormência ou formigueiro nas pernas, pés, nádegas ou região genital;
Fraqueza muscular, especialmente se for progressiva ou afetar ambos os lados do corpo;
Dificuldade em urinar ou evacuar, perda de controlo da bexiga ou intestinos;
Febre persistente ou inexplicável;
Dor abdominal intensa;
Tonturas, desmaio ou dor no peito;
Dor após um acidente traumático, como uma queda ou acidente rodoviário.
Estas manifestações podem ser sinais de uma condição neurológica ou infeciosa grave, que requer avaliação imediata em serviço de urgência.
Situações em que deve consultar o médico o mais brevemente possível
Mesmo que não sejam urgentes, há certos sinais que justificam uma consulta médica atempada, tais como:
Dor que persiste há mais de 72 horas ou que não melhora após algumas semanas de cuidados em casa;
Dor intensa durante a noite ou que o acorda do sono;
História pessoal de cancro;
Perda de peso sem razão aparente;
Ter mais de 55 anos e não existir uma causa clara para a dor;
Sistema imunitário comprometido (por exemplo, em pessoas com VIH, em tratamento oncológico ou com doenças autoimunes).
Além disso, se a dor estiver a limitar significativamente as suas atividades diárias, ou se sentir dificuldade em lidar com a situação, é importante consultar o seu médico de família.
Diagnóstico e exames
O diagnóstico é clínico, com base na história e exame físico. Na maior parte dos casos, os exames de imagem não são necessários nas fases iniciais. Contudo, podem ser indicados se surgirem sinais de alarme ou se a dor persistir durante mais de 4 a 6 semanas. Nestes casos, podem ser realizados exames como:
Radiografia, ressonância magnética ou tomografia computorizada (TAC), para avaliar estruturas ósseas e tecidos moles;
Eletromiografia (EMG), para avaliar o funcionamento dos nervos e músculos;
Análises ao sangue ou à urina, para excluir infeções, inflamações ou outras doenças subjacentes.
Quanto mais precisa e detalhada for a descrição da dor e dos sintomas associados, mais fácil será para o médico estabelecer um diagnóstico correto e propor um plano de tratamento adequado.
Como prevenir lombalgias?
Embora nem sempre seja possível, evitar o aparecimento e recorrência de dores lombares passa por adotar bons hábitos, tais como:
Dobrar os joelhos ao levantar pesos;
Usar cadeiras com apoio lombar;
Dormir num colchão adequado;
Praticar exercício físico regular;
Manter um peso saudável;
Evitar tabaco e álcool em excesso;
Evitar usar saltos altos com frequência;
Aquecer antes de treinar;
Adaptar o local de trabalho;
Fazer pausas regulares em trabalho sedentário.
Tomar estas precauções, de forma consistente, ajuda não só a prevenir o aparecimento da dor lombar, como também a reduzir o risco de episódios futuros em quem já teve lombalgias.