Ocitocina: o que é a hormona do amor?
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Ocitocina: o que é a hormona do amor?
A chamada “hormona do amor”, também conhecida como oxitocina ou ocitocina, é sobretudo reconhecida pelo seu papel fundamental no parto.
Produzida no hipotálamo e libertada na corrente sanguínea pela glândula pituitária, a ocitocina está envolvida na modulação do afeto, do vínculo social e da confiança. Embora possa estar associada a sensações de bem-estar, não deve ser entendida como uma “hormona da felicidade”, ao contrário de outras substâncias, como as endorfinas ou a serotonina, uma vez que o seu papel é distinto.
A ocitocina tem um mecanismo de ação particular e a sua forma sintética é amplamente utilizada em contexto obstétrico. No entanto, fora dessa área, a evidência clínica sobre os seus efeitos noutras condições de saúde é mista, com estudos heterogéneos e alguns ensaios com resultados negativos.
Para que serve a ocitocina?
A ocitocina é utilizada para estimular as contrações do útero durante o trabalho de parto. Mas esta hormona desempenha também um papel essencial na amamentação: enquanto a prolactina é responsável pela produção do leite (lactogénese), a ocitocina provoca a contração das células mioepiteliais da mama, permitindo a ejeção ou “descida” do leite materno.
Para além das suas funções periféricas, a ocitocina atua também como neurotransmissor no sistema nervoso central. Nesse contexto, está envolvida em diversos aspetos do comportamento humano e das interações sociais, incluindo a formação de vínculos afetivos, a confiança, o reconhecimento social, a excitação sexual, o interesse romântico e a ligação entre pais e filhos.
Os efeitos da ocitocina no cérebro são complexos e ainda não totalmente compreendidos. Atualmente, a comunidade científica continua a investigar o seu possível papel em várias condições, como anorexia, ansiedade, depressão, perturbação do espetro do autismo (PEA) e perturbação de stress pós-traumático (PSPT).
Relação entre serotonina, dopamina e ocitocina
A serotonina, a dopamina e a ocitocina são frequentemente associadas a emoções positivas devido aos seus efeitos no cérebro e no organismo. No entanto, cada uma desempenha funções específicas e complementares.
Quando uma pessoa se sente atraída por outra, o cérebro liberta dopamina, que está relacionada com o prazer, a motivação e a recompensa. Podem também ocorrer alterações nos níveis de serotonina, associada à regulação do humor, enquanto a ocitocina é produzida sobretudo para promover o vínculo emocional, a proximidade e a ligação social.
O papel da hormona no vínculo parental
A utilização de ocitocina durante o parto é feita a mulheres com indicação médica para a indução do trabalho de parto ou para a sua estimulação e reforço.
Para além do seu uso clínico, a ocitocina desempenha um papel central na alimentação do bebé e na formação do vínculo afetivo entre mãe e filho. Esta hormona está envolvida tanto na ejeção do leite materno como nos comportamentos de proximidade, cuidado e ligação emocional que se estabelecem após o nascimento.
Importa ainda referir que este efeito não se limita à maternidade. Estudos demonstram que, na paternidade, os níveis de ocitocina nos homens também podem aumentar durante a interação com o bebé.
Ligação entre mãe e bebé
Mães com níveis mais elevados de ocitocina tendem a demonstrar comportamentos mais afetuosos, como verificar o bebé com maior frequência, bem como falar ou cantar de forma particular e reconfortante.
Por sua vez, os bebés que recebem este tipo de cuidado parental podem também apresentar um aumento da produção de ocitocina, o que os leva a procurar mais contacto e proximidade com a mãe, reforçando progressivamente o vínculo emocional entre ambos.
O impacto no sexo feminino vs. masculino
A ocitocina pode ter impacto em homens e mulheres de forma distinta, sobretudo em contextos biológicos e sociais.
No sexo feminino, a sua função mais conhecida está relacionada com o trabalho de parto e a amamentação, sendo essencial para as contrações uterinas e para a ejeção do leite materno. Já no sexo masculino, a ocitocina está envolvida no processo de ejaculação e pode também influenciar a regulação da produção de testosterona.
Em ambos os géneros, esta hormona participa ainda na modulação de comportamentos sociais e emocionais, embora os seus efeitos possam variar consoante o contexto e os níveis hormonais individuais.
O que tem impacto nos níveis de ocitocina?
A ocitocina é uma das poucas hormonas que funciona através de um mecanismo de feedback positivo, ou seja, a sua libertação desencadeia respostas que estimulam a glândula pituitária a libertar quantidades ainda maiores desta hormona.
Um exemplo claro deste processo ocorre durante a amamentação. A sucção do bebé estimula a hipófise a libertar ocitocina, o que permite a ejeção do leite através do tecido mamário. Esta libertação hormonal mantém-se enquanto o bebé mama, cessando quando a sucção termina e reiniciando sempre que a amamentação recomeça.
Níveis altos
Nas mulheres, níveis excessivos de ocitocina são raros. O excesso desta hormona pode causar hiperestimulação uterina (taquissistolia), o que pode levar a contrações demasiado frequentes, sofrimento fetal e, em casos mais graves, risco de rutura uterina.
No sexo masculino, níveis elevados de ocitocina têm sido associados ao aumento do volume da próstata, designadamente à hiperplasia prostática benigna, condição que pode dificultar a micção.
Níveis baixos
Níveis baixos de ocitocina podem interferir com as contrações uterinas durante o trabalho de parto e dificultar a descida do leite após o nascimento.
Embora seja uma situação pouco frequente, uma das causas mais comuns de níveis abaixo do normal é o pan-hipopituitarismo, uma condição em que a glândula pituitária produz quantidades insuficientes de várias hormonas.
Para além disso, níveis reduzidos de ocitocina têm sido associados a perturbações do espectro do autismo, a sintomas depressivos e à depressão pós-parto. No entanto, são necessários mais estudos para confirmar e clarificar a relação entre estas condições e a chamada “hormona do amor”.
Efeitos adversos
Embora seja uma hormona produzida naturalmente pelo organismo, a ocitocina pode ser administrada em contexto médico.
A sua forma sintética é utilizada para induzir o trabalho de parto quando este não se inicia espontaneamente, bem como para acelerar a expulsão da placenta e reduzir o risco de hemorragia pós-parto.
Entre os possíveis efeitos adversos, embora raros, podem incluir-se:
Diminuição acentuada da pressão arterial sistólica e diastólica materna;
Desaceleração variável da frequência cardíaca fetal;
Bradicardia sinusal, taquicardia e outras arritmias;
Convulsão neonatal;
Óbito fetal.
Como produzir ocitocina
De forma natural, a criação de ligações sociais, amizades significativas e relações íntimas é uma das formas mais eficazes de estimular a libertação de ocitocina.
Alguns exemplos práticos incluem:
Toque físico consensual, como abraços ou contacto próximo;
Atividades sociais e de autocuidado que promovem o bem-estar, como visitar familiares, jantar com amigos, passar tempo com os filhos, receber uma massagem ou interagir com animais de estimação;
Prática de exercício físico, que pode favorecer a libertação de várias hormonas associadas ao bem-estar;
Ouvir música ou cantar, especialmente em grupo, uma vez que esta atividade parece reforçar o sentimento de ligação e pertença entre as pessoas.
Estas estratégias podem contribuir para o aumento natural da ocitocina e para o fortalecimento das relações sociais e emocionais.