Como aliviar rapidamente as cólicas?
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Índice
As cólicas são dores intensas em forma de espasmos que podem afetar órgãos como o estômago, o intestino, o útero, a vesícula biliar ou os rins.
Em situações como cálculos biliares ou renais, a dor é provocada por uma obstrução. Nesses casos, os músculos contraem-se com força para tentar expulsar o obstáculo, originando a dor característica.
Mas nem sempre estão ligadas a uma obstrução: podem surgir, por exemplo, durante a menstruação, em casos de gastroenterite, síndrome do intestino irritável ou em bebés (cólica do lactente).
Que tipos de cólicas existem?
A cólica, muitas vezes associada aos bebés, pode afetar qualquer pessoa. As mais comuns são as cólicas intestinais, biliares e renais.
É importante lembrar que nem toda a “dor de barriga” é cólica. A dor característica da cólica apresenta-se em padrões de onda, ou seja, momentos de dor intensa que alternam com períodos de alívio relativo. Este detalhe ajuda a distinguir as cólicas de outros tipos de dor abdominal.
Para terminar com o desconforto causado pela cólica, cada tipo requer abordagens específicas, como explicamos a seguir.
Cólicas do lactente
Estima-se que, em todo o mundo, a cólica infantil afete cerca de 20% dos bebés.
Apesar de causar desconforto à criança e grande frustração aos pais, já que nenhum consolo parece aliviar os sintomas, trata-se de uma situação passageira.
As cólicas costumam surgir entre o primeiro e o quarto mês de vida do recém-nascido.
Causas
A causa das cólicas nos recém-nascidos não é totalmente conhecida. Ainda assim, existem alguns fatores que podem contribuir para o seu aparecimento, como:
Ansiedade parental;
Deglutição excessiva de ar;
Imaturidade gastrointestinal;
Desregulação da flora intestinal;
Mudanças na motilidade intestinal;
Forma inicial de enxaqueca infantil;
Desregulação das vias neurossensoriais;
Alimentação excessiva, insuficiente ou arrotos pouco frequentes;
Intolerâncias alimentares ou alergia às proteínas do leite de vaca.
É essencial excluir sinais de alarme, como febre, vómitos biliosos, sangue nas fezes, letargia, distensão abdominal marcada ou perda de peso.
Sintomas
Um bebé saudável pode ter episódios de cólica quando apresenta crises de choro intensas, sem causa aparente.
Os critérios clássicos, conhecidos como “regra dos 3”, definem cólica quando o bebé chora mais de 3 horas por dia, em mais de 3 dias por semana, durante pelo menos 3 semanas.
No entanto, os critérios mais atuais (Roma IV) consideram que a cólica pode ser diagnosticada em lactentes com menos de 5 meses. Estão com cólicas quando apresentam episódios recorrentes ou prolongados de choro, agitação ou irritabilidade sem explicação aparente, desde que não exista falha de crescimento ou outra condição médica que justifique os sintomas.
Entre os sinais que podem evidenciar a cólica estão:
Agitação;
Irritabilidade;
Pele vermelha;
Choro frequente, prolongado e estridente;
Tensão corporal, como dobrar as pernas sobre a barriga distendida.
Além destes sintomas, o bebé pode chorar com mais frequência à tarde e à noite.
Tratamento
Apesar de se tratar de uma situação transitória, é possível ajudar a atenuar a cólica no bebé, sendo que a forma de o fazer varia em função da causa.
Em alguns casos, o pediatra pode recomendar estratégias específicas:
Probióticos: mas apenas a estirpe Lactobacillus reuteri DSM 17938 mostrou benefício em bebés amamentados; nos lactentes alimentados com fórmula, a evidência ainda é inconsistente;
Fórmulas extensamente hidrolisadas: podem ser úteis quando há suspeita de alergia às proteínas do leite de vaca.
Além disso, medidas simples como a realização de massagens suaves no abdómen (sempre no sentido dos ponteiros do relógio) podem ajudar a aliviar o desconforto.
Há outras estratégias que também pode adotar para reduzir a cólica infantil:
Fazer o bebé arrotar com frequência (pode ajudar a reduzir a deglutição excessiva de ar durante a alimentação);
Usar um biberão curvo (que facilita a alimentação na posição vertical).
É importante salientar que alguns medicamentos devem ser evitados, como os antiespasmódicos (ex.: diciclomina), contraindicados em lactentes.
Cólicas menstruais
A dismenorreia é uma condição caracterizada por cólicas menstruais e dores intensas durante a menstruação, sendo que existem dois tipos, especificamente:
Dismenorreia primária: corresponde à cólica menstrual que surge após as primeiras menstruações;
Dismenorreia secundária: pode estar relacionada com algumas doenças ginecológicas.
Nas pessoas em idade fértil, a prevalência de dismenorreia pode variar entre 16% e 91%. Em adolescentes, a prevalência de cólicas menstruais é de 80%, sendo que, das adolescentes afetadas, cerca de 40% apresentam dismenorreia grave.
Causas
As cólicas menstruais podem resultar das contrações do útero ou estar associadas a determinadas patologias, como:
Adenomiose;
Estenose cervical;
Doença inflamatória pélvica (DIP).
Alguns fatores de risco podem estar associados a episódios mais graves de dismenorreia, tais como: fumar, fluxo menstrual intenso ou períodos menstruais prolongados.
Sintomas
O principal sintoma da cólica menstrual é a dor no baixo ventre, que pode irradiar para a zona lombar e para as coxas.
Este desconforto pode ainda vir acompanhado de outros sinais, como:
Náuseas e vómitos;
Vertigens;
Diarreia.
Tratamento
Para aliviar o desconforto causado pelas cólicas menstruais, podem ser adotadas algumas medidas:
Praticar exercício físico aeróbico, como caminhar ou nadar, para ajudar a relaxar o corpo;
Aplicar calor na zona abdominal;
Recorrer a analgésicos, anti-inflamatórios ou anticoncecionais hormonais, sempre sob orientação médica.
Quando as cólicas menstruais estão associadas a uma doença ginecológica, o tratamento deve incidir na patologia de base.
Alguns sinais justificam uma investigação médica mais aprofundada, especialmente quando a dor:
Surge apenas depois dos 25–30 anos;
Não melhora com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs);
Se associa a dispareunia (dor nas relações sexuais);
Vem acompanhada de sangramento menstrual abundante;
Está relacionada com infertilidade.
Estes sinais podem indicar causas secundárias de cólica menstrual, como a endometriose ou outras patologias ginecológicas, que requerem avaliação e tratamento específicos.
Cólicas renais
A cólica renal é uma dor causada pela passagem de um cálculo (pedra nos rins) através do aparelho urinário até ser eliminado pelas vias urinárias.
O cálculo pode ficar retido em diferentes pontos do sistema urinário, que é constituído pelos rins, ureteres e bexiga.
Causas
Os cálculos renais formam-se pela cristalização e aglomeração de substâncias químicas presentes na urina, como o cálcio e o ácido úrico.
Quanto maior for a “pedra”, maior a obstrução, a pressão e o estiramento dos tecidos renais.
A intensidade da cólica renal pode variar de ligeira a grave, dependendo do tamanho e da localização do cálculo.
Sintomas
Além da dor súbita e intensa na zona lombar, na cintura ou junto às costelas, a cólica renal pode também manifestar-se com outros sintomas, como:
Dor, ardor e/ou dificuldade em urinar;
Urina turva e/ou com odor forte;
Vontade frequente de urinar;
Sangue na urina;
Dor nos genitais;
Calafrios;
Náuseas;
Vómitos;
Um episódio de cólica renal pode durar de 20 a 60 minutos e, em casos severos, a dor pode durar ainda mais.
Tratamento
O tratamento da cólica renal varia consoante o tipo e o tamanho do cálculo. Nos casos de cálculos pequenos, podem ser eliminados naturalmente através da urina.
É fundamental consultar um médico urologista para identificar a causa da dor e definir o tratamento mais adequado.
A automedicação pode agravar o quadro clínico, qualquer medicação deve ser tomada apenas com indicação médica.
Perante uma crise de cólica renal, a primeira medida é o controlo da dor, podendo recorrer a:
Analgésicos;
Anti-inflamatórios;
Antipasmótico (relaxantes do ureter).
Podem ainda ser prescritas outras medicações após o episódio agudo, com o objetivo de facilitar a eliminação do cálculo e prevenir novas crises.
Se a dor não diminuir ou não for controlada, é essencial procurar um serviço de urgência para avaliar a situação e excluir complicações graves, como lesão renal aguda.
Em alguns casos, pode mesmo ser necessária uma intervenção cirúrgica de urgência para remover os cálculos.
Cólicas biliares
A litíase ou a cólica biliar ocorre quando existem cálculos na vesícula. Esta é uma complicação relativamente frequente, sendo uma das que mais afeta as vias biliares.
Causas
Os cálculos na vesícula formam-se geralmente pela cristalização de substâncias presentes na bílis, como o colesterol e a bilirrubina, quando estão em excesso.
Também podem surgir devido ao mau funcionamento da vesícula ou como consequência de outras doenças.
Um episódio de cólica biliar é mais provável após uma refeição abundante, sobretudo se rica em gorduras, embora possa ocorrer em qualquer momento.
Além disso, existem fatores de risco a considerar:
Sedentarismo;
Jejum prolongado;
Toma de hormonas e/ou contracetivos orais;
Idade avançada;
História familiar;
Anemia hemolítica;
Sintomas
Uma cólica na barriga, caracterizada por uma dor na região do estômago ou sob as costelas, do lado direito, é o principal sintoma deste tipo de obstrução, sendo que o desconforto pode irradiar para outras zonas do corpo.
A cólica biliar provoca uma dor abdominal súbita e intensa, que pode durar desde alguns minutos até cerca de cinco horas. Este desconforto pode ainda vir acompanhado de:
Vómitos;
Suores;
Enjoos;
Palidez.
Tratamento
Quando há sintomas ou complicações, o tratamento de eleição é a cirurgia (colecistectomia), que consiste na remoção definitiva da vesícula, podendo ser realizada através de um corte na parede abdominal ou por via laparoscópica.
Em alguns casos, a cirurgia pode ser recomendada mesmo na ausência de sintomas, tendo em conta fatores como:
Alterações na vesícula (vesícula calcificada);
Doentes diabéticos ou a tomar imunossupressores;
Migração dos cálculos da vesícula (localizados nas vias biliares, por exemplo).
Cólicas intestinais
A cólica intestinal, como o próprio nome indica, ocorre devido a um bloqueio ou obstrução no intestino.
Causas
Podem ocorrer devido a um bloqueio parcial ou total no intestino delgado ou grosso, que impede a passagem de alimentos, fluidos, fezes ou ar.
Estes bloqueios podem ter várias causas subjacentes:
Algumas condições inflamatórias, como doença de Crohn, retocolite ulcerativa ou diverticulite;
Fezes endurecidas que ficam presas no intestino grosso;
Tecido cicatricial de uma cirurgia abdominal anterior;
Sintomas
A cólica intestinal pode ser leve ou forte. Além disso, pode ser acompanhada por:
Incapacidade de evacuar;
Perda de apetite;
Náuseas;
Vómitos;
Inchaço;
Diarreia.
Tratamento
O médico pode recomendar analgésicos e anti-inflamatórios para aliviar os sintomas. No entanto, o tratamento da cólica intestinal depende da causa subjacente.
Como aliviar as cólicas?
Para tratar um episódio de cólica em casa, pode experimentar:
Massajar suavemente a área afetada;
Beber bastante água para manter uma boa hidratação;
Colocar calor local, como uma bolsa de água quente, para aliviar o desconforto.
Estas medidas só são recomendadas em casos de dor ligeira a moderada e sem sinais de alarme. Procure avaliação médica se houver:
Febre;
Vómitos persistentes;
Icterícia (pele ou olhos amarelados);
Sangue nas fezes ou na urina;
Dor intensa que dura mais de 6 horas;
Gravidez;
Idade muito jovem ou avançada;
Imunossupressão.
Perguntas mais frequentes
A cólica renal pode ser confundida com dores nas costas?
Devido à localização dos rins, muitas pessoas podem não reconhecer uma cólica renal ou até confundi-la com dor nas costas. No entanto, existem diferenças importantes:
Dor nas costas: geralmente sente-se na zona central, sobre a coluna, sendo mais comum na região lombar. Pode irradiar para as pernas e tende a melhorar com o repouso;
Dor nos rins: é sentida na parte superior das costas, abaixo das costelas e mais profundamente. Pode irradiar para a virilha ou para o abdómen e não melhora com o descanso.
É possível ter cólica renal sem ter “pedras” nos rins?
A cólica renal nem sempre está relacionada com a presença de cálculos, outras condições abdominais também podem provocar dor semelhante.
Além disso, espasmos nos ureteres ou na bexiga podem simular uma cólica renal, ocorrendo com ou sem a presença de cálculos urinários.
Quanto tempo duram as cólicas menstruais?
A dor da cólica menstrual costuma surgir 1 a 3 dias antes da menstruação, atinge o seu pico cerca de 24 horas após o início e tende a desaparecer ao fim de 2 a 3 dias.
É normal ter cólica menstrual intensa?
É normal sentir algum desconforto durante a menstruação. No entanto, cerca de 10% das mulheres relatam dores tão intensas que chegam a interferir nas suas atividades diárias.
Com o passar da idade, as cólicas tendem a diminuir e, após o parto, podem tornar-se menos intensas.
Quanto tempo dura a cólica no bebé?
Embora uma crise de cólica no bebé possa ser angustiante para os pais, não representa um risco para a saúde do bebé. Na maioria dos casos, a cólica desaparece por volta dos 3 ou 4 meses de idade.
Cada episódio pode durar desde alguns minutos até várias horas, mas tende a diminuir gradualmente com o tempo.
Como aliviar a cólica em adultos?
Em adultos, o alívio das cólicas pode passar por manter uma boa hidratação, tomar analgésicos ou massajar suavemente a zona afetada.
Contudo, dependendo da causa, pode ser necessário tratamento médico específico, como por exemplo cirurgia para remover cálculos renais.
O que comer em caso de cólica?
Não há alimentos específicos que impeçam um acesso de cólica e diarreia, ou outros sintomas adicionais.
No entanto, há mudanças no estilo de vida que podem ajudar a reduzir a probabilidade de ocorrência.
Para isso, deve evitar o consumo de quantidades excessivas de sal, reduzir a ingestão de alimentos ricos em gordura saturada e, em situações específicas, adotar uma dieta pobre em fibras.
No entanto, esta recomendação de dieta pobre em fibras aplica-se apenas quando existe risco ou diagnóstico confirmado de estenoses ou obstruções intestinais e deve ser sempre seguida com orientação médica.